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O TROCADOR Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos
Escrito por: Schroeder
Schroeder

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Ter, 09 de Março de 2010 14:26

― É menino! ― a mulher gorda gritou do interior de um dos apenas dois cômodos do cafofo, em meio aos gemidos da mãe que se retorcia sobre a cama barulhenta. ― E tem um baita saco roxo! ― a parteira arrematou com toda a elegância que sua estirpe permitia.

Pedro, o pai, que esperava a quase uma hora no cômodo desocupado, mal olhou para a cara do menino. Espiou o escroto e, em um sorriso largo sem dentes, gritou:

― Uia! Num é que é um baita moleque! ― só então percebeu que o guri tinha cabeça. ― A cara do pai!

De fato era!

― Não se preocupa ― a parteira tentou consolá-lo. ― os bebê nasce tudo assim com a cara amassada mesmo. E os dente e cabelo vêm depois. Depois ele fica bão!

O pai fresco nem se incomodou com a observação. Aliás, precisaria do dobro do QI para perceber a ironia. O sorriso vazio continuava a absorver a claridade como um buraco negro sem dentes. Apenas a pontinha de uma gengiva gasta e babada refletia o lampião sobre a mesa.

― Vâmo festá turma! ― seu Pedro acordou os compadres que já “comemoravam” desde o amanhecer, e àquela hora da noite jaziam estatelados no chão batido do apertado cômodo. O cheiro de cachaça era muito forte. Inebriante! Alguém fraco para bebida provavelmente se embriagaria pelo olfato.

Trôpegos, os cachaceiros seguiram o não mais sóbrio pai da criança.

Enquanto seu Pedro festava, dona Maria morria, fruto das complicações ao parir.

De manhã, a tal mulher gorda apareceu no boteco, onde Pedro, com o taco de sinuca na mão tentava descobrir qual das duas bolas brancas era a verdadeira. "Ops... três bolas brancas?"

― Seu Pedro, desculpa, tentei salvar sua mulher, mas ela não guentou. Ela morreu. Tá aqui seu filho!

Com olhar perdido no além, quase indiferente, Pedro apanhou o pequeno peso de carne enrolado em panos, e saiu caminhando sem rumo. Em um dos braços levava o bebê órfão, na mão livre o copo cheio.

Não ficou cheio por muito tempo...

Minutos mais tarde Pedro entornou o último gole de pinga, na garganta já cauterizada, e sentiu um cheiro estranho. Primeiro cheirou a si próprio. O odor não era nada bom, mas ainda não era o cheiro que o estava incomodando. O cheiro forte parecia vir de dentro da tal trouxa.

"Será possível?"

O tosco homem parou. Encostou-se em uma mureta, aproximou o nariz e reconheceu que o cheiro realmente vinha lá de dentro.

― Humm... seu neném fez cocô! ― o olfato sóbrio de uma transeunte que passava ao lado percebeu.

― E... uquê fa-faço? ― sua fala era torpe.

― Você precisa trocar ele.

― É mêmo?

― Sim.

― E onde faço isso?

― Olha só que sorte! O senhor está bem na frente de um hospital público. Ali certamente o senhor vai encontrar um trocador.

― Humm... um troc-trocador?

― Isso mesmo. Venha cá, que eu ajudo o senhor a entrar.

A alma caridosa dirigiu o bêbado até a entrada do estabelecimento.

― Agora o senhor siga as placas. ― ela apontou para a lâmina de aço polida, com uma seta para a esquerda e os dizeres: “TROCADOR PÚBLICO”.

"Você precisa trocar ele..." A mente débil de Pedro, em espasmos de sobriedade, meditava em como as coisas haviam se tornado fáceis nos dias modernos. Antigamente lavava-se o pano cagado, para depois de seco, recolocá-lo na criança.

― O mundo fiii-ficou descaaaartável. ― ele soluçou. ― hoje em dia é mole-mole... fez cocô é só trocá. Nada de lavá fralda!

Instantes depois, ele parou diante de uma porta no final do corredor. Apesar de não saber ler, tinha percebido que era o lugar certo, pois havia muitas crianças lá dentro.

― Moça! Moça! ― seu Pedro chamou a funcionária responsável pelo trocador do hospital.

― Pois não, senhor? ― a mulher respondeu, tentando disfarçar a careta de repúdio. O cheiro era difícil de tragar.

― Tô procurando o trocadô...

― Trocador?! É aqui mesmo!

― Meu neném fez cocô... e a moça da rua falô pra mim que é aqui que tro-troco o neném.

― Exatamente. É aqui mesmo. Pode ficar à vontade para trocá-lo.

"Hoje é tudo muito fácil mesmo. Gostei!" Pedro deu um sorriso de satisfação, só por imaginar o tempo que economizaria. Assim era muito fácil criar filhos! "Porque ninguém pensou nisso antes?" Ele soluçou.

Pedro estendeu seu bebê em direção à mulher.

― Toma o cagão! ― ele percorreu os olhos clínicos pelo local. ― Eu vô querê levar aquele loirinho ali!



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O TROCADOR
Ter, 09 de Março de 2010

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Última atualização em Qua, 10 de Março de 2010 07:02
 
Comentários (8)
  • Cilas_Medi
    avatar
    Hilário o final. Coitada da criança, espero que não tenha absorvido pelo contato o excesso de pinga. Estrelado. Parabéns, poeta!
  • Abreu
    avatar
    Uma troca justa...
  • Juarez_do_Brasil
    avatar
    Pai já não é lá muito esperto para trocar a fralda de um bebê. Imagina bêbado. Muito engraçado seu conto, mas a criança coitada merecia coisa melhor. kkkkk
  • veruska
    avatar
    Que conto tão bem escrito...Uma narração cheia de vida, que nos prende desde a primeira linha. Ironia entremeada com uma realidade dorida, que é a ignorância, infelizmente corrente, duma grande maioria da faixa social, onde nem faltou uma discreta chamada de atenção para o problema do alcoolismo. Gostei muito. Você é um verdadeiro contador de histórias. Parabéns. Vera Lucia
  • ReginaldoRodrigues
    avatar
    Histórias do cotidiano... É 5 estrelas! Abraço!
  • Kokranne
    avatar
    Genil! Hilário...rsrsrskkkkkkkkkkkkkk...senti o cheiro daqui! Adorei e estrelei!Parabéns!Abrazos. Gracias pela visita.
  • tania_martins
    avatar
    Parabéns pelo texto! Abraços.
  • Laylalins  - GOSTEI!
    avatar
    Schroeder, hilário conto!! Aguardo próximos!
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