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"És tão pálida como a pureza de tua morte Os olhos cerrados em sono eterno Teu cheiro estonteante me entorpece Muito melhor que o cheiro do inferno
E não se mexe, não se mexe Dormiu sorrindo, sem nem perceber Um pequeno anjo que adormece Te perdoo por não entender..."
Foi em uma noite estrelada que ele a encontrou. Um pequeno pedaço do céu iluminado pela lua. Sem certezas ou definições. O canto que saía dos seus lábios embalavam os passos descordenados dele, que em cada esquina se sentia ainda mais enrolado pelas teias dos cabelos dela.
"Uma corrida sem caça, sem prêmio, sem vencedor."
Dias e dias, noites e madrugadas, as letras corriam, mas o poeta não escrevia nada. Cada linha era pra ela, cada rima era ela, sem nomes, sem verdades ou falsas imaginações. Ele apenas a mantinha presa no risco da tinta.
Ela fugia perdia em seu próprio reflexo nos flashes do espelho dele. Ia sumindo em cada pequeno tropeço nos mimos que ele lhe dava. Ela não o conhecia. Mas ele? Ah! Ele a queria. Anônimo em cada final de poesia dedicada. Uma rosa entre as letras de cada carta.
"E essa eternidade que não passa..."
Mais uma semana e ela viria. As velas já estavam prontas, as cortinas abaixadas, as canetas escondidas. Ela parecia a princesa do primeiro dia. O vestido branco, em que a sua própria brancura se perdia. Os cabelos soltos a misturar-se com o vazio da noite. Seus lábios vermelhos a iluminar seus dentes enquanto ela sorria. Ah! como era belo quando ela sorria. Mas ele queria mais, muito mais. Ele precisava preencher suas linhas, e ela era a única inspiração que ele tinha.
Os olhos dela se perdiam no queimar da lenha, e logo o sabor de seus beijos adocicavam o vinho na taça. As mãos dele estão se perdendo pelas curvas dela. Despindo-a com a mesma delicadeza que uma brisa despetala uma rosa. Estão nus, se descobrindo sem pensar no tempo. Toques seguidos de beijos, mordidas seguidas de arrepios, e então eles se deitam. O tapete vermelho se aquece com o calor daqueles corpos, que suados, se movimentam em uma dança lenta, que vai aumentando sua intensidade. São os bailarinos que ditam o ritmo, embalando aquela coreografia com gemidos e ofegos. Mais duas, três investidas, e os corpos relaxam em suas próprias anestezias. Estão cansados, quem não estaria? Ela adormece sorrindo, sem saber que seu suspiro, é a última vez que ela respira.
O poeta não tem tinta na escrivaninha...
Um punhal banhado em prata a tira dessa vida. Uma, duas fincadas a mais, e ela não resistira. Deixara-se levar. Mas ela dormia, morria e nem percebia. Se procupava mais no fato de abandonar a menina. Morrera mulher, como queria.
Dos olhos dele, uma lágrima fina correu tímida. Era uma pena, mas ela seria eternizada no que ele escrevia. O sangue dela manchando o papel em linhas e entrelinhas. Um poeta precisa de sua poesia. Seja o que for, é nos versos que ele respira. E já abatido pelo sol que começava a nascer, ele termina...
"Tua alma será intensa nestas linhas Fonte de versos, fonte de rimas Serás eterna, pequena princesa minha Em cada verso desta tua poesia
Durma tranquila que eu te cuidarei Sobre sangue e cuidados, eu te velarei Já que não há mais nada neste maldito lugar Apenas o som do seu silêncio a me confortar."
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